A.L.I.C.IA.

O DIA QUE TROLLEI A INTERNET

Tudo começou em 2012, em um chansite brasileiro. Criei uma história sobre um grupo de justiceiros que caçavam pedófilos da internet, ao me deparar com diversos adolescentes buscando esse tipo de material nesse site. A história viralizou por algumas horas no mesmo dia e logo foi perdida.

Tempos depois, em 2014, me convidaram para um grupo de "panelinha" no facebook, eu apenas lia as besteiras que lá postavam, até que vi que alguém havia perguntado sobre A.L.I.C.I.A. (agora tinha PONTOS no nome) e logo um grande número de pessoas começou a dizer que não poderiam tocar naquele assunto. Eu já de cara, achando muito engraçado, perguntei porque não poderiam falar a respeito e ninguém soube explicar.

Na hora, pensei em falar o quanto aquilo era besteira e que, se propagaram que estavam com medo, isso se dava ao fato de A.L.I.C.I.A. ser um grupo que matava pedófilos.

Já em uma noite de uma quinta-feira, alguém faz um post no mesmo grupo, dizendo estar sendo perseguido, que haviam lhe ligado e apenas respirado e ele ouviu uma voz ao fundo falando "ALICE". Na hora eu fiquei puto, porque não era ALICE, era ALICIA. Tinha que tomar providências...Foi em uma ação rápida, peguei as informações do cara pelo CADSUS, consegui pegar o seu email através do seu nome em um banco de dados vazado do last.fm, criei um email temporário e já o enviei um email pedindo para parar. Ele entrou na brincadeira e disse "não tenho medo de você".

Para tornar a brincadeira mais interessante, através do CPF dele, adquirido no cadsus, consegui pegar o número do seu celular em um site de consultas pago e lhe enviei um SMS através de uma API que envia SMS grátis para teste e mandei outro email: "E agora?", ele não respondeu e apagou seu post no facebook.

Como percebi que ele tinha ficado assustado, fui um pouco além, através do email dele, peguei o seu usuário do skype, que por sorte ele usava. Mandei um alias e tive acesso ao IP dele, para então, eu gastar 4 dólares em um stresser server e derrubar a internet dele. Assim que os pings começaram a dar timeout, mandei outro SMS: "Estou a caminho." e na empolgação, liguei para ele via VOIP com o número "666" e fiquei apenas respirando, ele falava com a voz trêmula: "Alô? Alô? Alôôô?", após uns 3 segundos de silêncio, a pergunta: "Eu posso desligar? Desculpa", em uma mistura de medo e choro. Eu desliguei.

Mandei em seguida mais um email: Avise a seus amigos para não me procurarem de novo, se o que buscam é a verdade, eu os encontrarei.

No mesmo dia, 2 horas mais tarde, eu ainda no trabalho, quase 11 horas da noite, vejo um publicação do mesmo cara contando tudo que aconteceu e TODOS os comentários dizendo que era "bait", "fake" e "mentira". Deve ter sido traumatizante.... Inclusive, Gabriel (era assim o seu nome?), me desculpe, foi tudo pela zueira.

Com o perigo eminente de mais pessoas passaram a inventar histórias a respeito, resolvi ir um pouco além naquele dia: criar um site supostamente secreto.

O problema que surgiu era: Como fazer isso? Como mostrar um site que da para saber que acabará de ser criado, poderia se passar por um "site secreto"? Foi ai que surgiu a ideia que ainda deixaria a história melhor: deepweb.

Subi um servidor apache no linux e configurei um service do tor, eu já tinha um site na DeepWeb, faltava então o texto.

Em um momento de inspiração meio louco, comecei a criar várias frases que se ligavam e tentavam dizer algo. Coloquei várias referências, a maioria maçônicas (desculpem IIr.`.), introduzi pistas no código fonte e coloquei um cronômetro com a data do meu aniversário.

Logo que o site ficou pronto, uma página única com o fundo preto e fonte vermelha, com alguns textos pretos para ficarem ocultos (e ainda tem gente que achou isso um "hackthing"), o site estava pronto com um pequeno problema: Eu esqueci de colocar todos os pontos: A.L.I.CIA.. Como aquele IA dava uma referência a Inteligência Artificial, eu deixei para ficar ainda mais confuso.

Tudo pronto, peguei o nome de mais 2 membros da tal panelinha, com os mesmos recursos disponíveis, peguei o número de celular deles e enviei aos 3 (o primeiro lá de cima também), o link do onion: 5fpp2orjc2ejd2g7.onion. Não demorou muito para começarem a compartilhar e mais gente dizendo que recebeu (muito mais que os 3 inicias, parece que eles entram no personagem). Foi o suficiente para que o tema "A.L.I.CIA." estivesse mais forte do que nunca dentro das "panelinhas" do facebook.

Tempo depois, eu já não acompanhando mais esses grupos, mas com o site ainda disponível (recebia de 20 a 30 visitas diárias), eu entrei para ver como que estava, e percebi que o contador já tinha zerado, então apenas coloquei uma nova data, foi ai que a parada começou a ficar séria.

Cheguei para trabalhar no dia seguinte e assim que subi o console de stats do tor, vi que naquela madrugada havia tido mais de 7 mil visitas, já fui correndo ver se estava tudo bem com o site e logo sai pesquisando a origem daquilo tudo. O responsável foi o Twitter: Alguém havia perguntado sobre aquele site e aquele contador. Várias pessoas (língua inglesa), estava questionando o tema.

Achei apenas engraçado e deixei do jeito que estava, mas acompanhando o console e o tráfego da rede, afinal eu estava usando a internet da empresa e isso poderia gerar alguma sobrecarga ou problema com o ISP.

Uns 3 dias mais tarde, com um tráfego que variou de 3 a 7 mil visitas diárias, uma nova surpresa: Quase 30 mil acessos. Novamente fui procurar a fonte, e vi que era um usuário de conta verificada: DrossRotzank que tinha falado sobre o assunto.

Nesse momento, bateu o momento empreendedor e pensei em monetizar, mas veio a pergunta: Como monetizar um site em um lugar onde as pessoas não podem ser identificadas e nem querem, com anúncios? Desisti da idéia e deixei as coisas do jeito que estavam.

Quando o contador estava próximo de zerar, o tráfego começou a subir assustadoramente: 50, 60, 70 mil visitas diárias (ÚNICAS), foram as visitas provenientes de sites que ligam a wide com a deep, como o onion.link.

Tudo ficou ainda mais bizarro, quando aquele mesmo usuário fez um vídeo para o seu canal, hoje com 12 milhões de inscritos (só esse vídeo hoje tem 4.148.063 views) e um site de página única, 32kb, estava recebendo mais de MEIO MILHÃO de visitas únicas em um dia.

Foi provavelmente, um dos sites mais visitados da deepweb, foi com certeza um dos dias que a deepweb teve o maior tráfego, tudo por causa de um contador.

Começaram a surgir vários vídeos, 30, 40, 50 mil views. Livestream acompanhando o fim do cronômetro, teorias, threads no reddit, diversos tópicos no 4chan que, quando entrei no /b/catalog, de 30 threads, 10 eram de uma maripousa vermelha.

Chegou o impasse: Preparo algo para o fim desse cronômetro? Foi ai que conclui que o que fez A.L.I.C.IA. ficar famosa como ficou, foi a improvisação, mas também a incapacidade de quem acessa, entender o que acontece ou irá acontecer, então a última coisa que eu deveria fazer, era atender as expectativas deles. Não fiz nada.

Depois disso, várias pessoas começaram a enxergar esse site como uma espécie de CICADA, foi quando vi uma oportunidade de brincar um pouco mais com o público e passei a criar alguns arquivos secretos e referências, eram vários níveis, no final acabei criando mais níveis do que as pessoas conseguiram atingir, eu superestimei demais o público em alguns momentos e acabei tornando os desafios mais fáceis para conseguirem avançar de etapa.

Em determinado momento, até coloquei uma carteira de Bitcoin no site, onde acabei recebendo 0.10 BTC (R$ 3.300 na cotação de hoje) onde eu enviava um .txt com dica para o próximo estágio.

Também, em determinado momento, ao encontrar um grupo de "panelinha" que tinha sido criado em homenagem a A.L.I.CIA., peguei o nome de todos os membros de lá e coloquei no código fonte do site. Isso foi o suficiente para umas crianças brincando de detetives ou hackers (não sei ao certo), criassem um vídeo intitulado: Desmitificando A.L.I.C.IA., dizendo que o grupo pertenceria a uma moça e outros adolescentes, por eu ter criado essa referência.

Na época, eu até cheguei a brincar um pouco em cima disso, acabei me apropriando do email vinculado ao facebook dessa moça, para caso ela passasse a se utilizar da imagem da A.L.I.CIA, mas ela não fez. Também coloquei esse email de forma oculta aqui no site, para as pessoas passarem a mandar email para lá, mas como esse novo grupo atingido, eram de crianças, não tiveram intelecto necessário para avançar todos os níveis. Acabei desativando o site quando precisei utilizar o Windows, tempos mais tarde.

quase 6 anos depois, 11 milhões de visitas únicas, mais de 8 milhões de visualizações no Youtube, TrendingTopics no twitter e lenda urbana dentro de chans e panelinhas, eu declaro o Projeto A.L.I.CIA. encerrado!


Gustavo Porto Fernandes